A satisfação tranquila de contar como o viveste, não só o que aconteceu
Há uma satisfação tranquila em contar não o que te aconteceu, mas como o viveste por dentro. É isso que só tu podes deixar.
Há momentos em que reparas em algo estranho. Estás a contar uma história tua a alguém, qualquer pessoa, e pela primeira vez em anos contas também o que sentias enquanto acontecia. O que se mexia dentro de ti. Não só o que aconteceu lá fora.
E reparas, enquanto o dizes, em algo parecido com um descanso. Como se levasses anos a carregar essa parte sem saberes que a carregavas.
É disso que fala este artigo.
O quê qualquer um pode contar. O como só tu.
A tua mulher conhece os factos importantes da tua vida. Os teus filhos, uma boa parte. O teu irmão, a versão que ele viveu de fora. Os detalhes biográficos não são segredos: onde nasceste, o que estudaste, quando mudaste de trabalho, os nomes dos teus pais, as datas das etapas.
Mas como te sentias no dia em que aceitaste aquele trabalho ninguém sabe. Se duvidavas. Se tinhas medo. Se por dentro pensavas que estavas a enganar-te ainda que por fora dissesses que não. Isso, só tu sabes.
E quase nunca o contas. Porque não é o momento, porque há outras coisas para fazer, porque quando vai ser a altura de explicar algo tão estranho como o que se passava dentro de ti há trinta anos numa terça qualquer.
Porque nos custa contar o como
Ninguém nos ensinou. As gerações anteriores não falavam do que sentiam. Os nossos pais também não, muito. O que tinham dentro guardaram, e nós aprendemos por imitação que as coisas importantes não se contam, aguentam-se. Se parares um segundo, é exactamente o que o teu pai nunca te contou, pela mesma razão.
Há também um pouco de pudor. Parece presunçoso pôres-te a explicar o que sentias. Como se o que te aconteceu por dentro fosse assim tão interessante para alguém querer ouvir. Quase todos arrastamos essa sensação.
E depois há o dia a dia. Não é algo que apareça com urgência, não se pede em nenhuma conversa, nunca dá jeito. E o que não dá jeito, não se faz. Se lês isto a pensar no teu pai ou na tua mãe antes do que em ti, há uma forma concreta: oferecer-lhe o sítio onde possa contá-lo ao seu ritmo.
A satisfação tranquila que aparece quando começas
O que não esperavas é isto: assim que começas, algo dentro se assenta. Não é euforia, não é libertação dramática. É algo mais tranquilo. Como se uma parte de ti tivesse passado toda a vida a querer dizer isto e estivesse finalmente a deixá-lo sair.
Às vezes aparece a chorar, às vezes a rir, às vezes só com uma sensação estranha de “pronto, já o disse”. As pessoas que o experimentaram descrevem-no de formas diferentes, mas todas concordam numa coisa: faz bem por dentro.
Não é terapia, não pretende ser. É algo mais pequeno e mais real: por uma vez na vida estás a dar palavras ao que não as tinha. Estás a deixá-lo arrumado dentro de ti antes de o deixar arrumado a mais ninguém.
O que importa não é o que fizeste. É como te sentias enquanto o fazias. Isso é a única coisa que só tu podes contar.
A parte que é para os teus vem depois
Assim que começas a contá-lo, sim, claro que pensas neles. No dia em que a tua filha vai ler isto e perceber porque decidiste o que decidiste. No teu filho que vai saber como era o pai dele por dentro, não só o que se sentava à mesa ao domingo. Sobre o pouco que na verdade os teus filhos sabem de ti já falámos noutro sítio.
Mas isso, por mais estranho que pareça, é o segundo. A primeira coisa é que deixas de carregar sozinho algo que carregavas a solas. Pendura-lo em algum sítio, deixa-lo em palavras, e já não é só teu.
Que um dia eles possam saber quem eras realmente por dentro é uma esperança bonita. É provavelmente a razão pela qual continuas. Mas o primeiro beneficiário és tu, hoje, enquanto o estás a contar.
Como começar sem que seja estranho
Três maneiras concretas:
- Pega numa lembrança e conta-a duas vezes. A primeira, como a contas sempre: os factos, o quê. A segunda, parando no que sentias enquanto acontecia. Vais sentir a diferença.
- Escolhe um dia concreto do passado. Não o mais importante. Um qualquer de que te lembres bem. Conta não só o que fizeste nesse dia, mas como te sentias por dentro, o que pensavas, o que te preocupava, o que te dava gosto. Vais surpreender-te com o quanto ainda te lembras.
- Uma decisão grande e o seu porquê interior. Porque casaste com quem casaste. Porque mudaste de trabalho naquele ano. Porque deixaste de falar com o teu irmão. Não os factos: o porquê de dentro.
Podes fazê-lo a escrever, a falar em voz alta, em notas de voz no telemóvel, num caderno. A forma é indiferente. O que importa é dar-lhe um lugar.
O que fazemos na Legatio
Para quem não quer fazê-lo sozinho, a Legatio existe exactamente para isto. Falas com a nossa IA por WhatsApp quando te apetecer. Mandas uma nota de voz, escreves duas linhas, contas uma lembrança. A nossa IA pergunta-te por dentro: não só o que aconteceu, também como o viveste. Espera que termines a frase. Pede-te detalhes que não terias pensado em contar. E mais ninguém o lê: o que contas fica entre ti e a IA.
Depois compomos como um livro teu. A tua maneira de falar, as tuas expressões, o teu sotaque. Lê-lo e reconheces cada linha como tua. Os teus filhos, um dia, vão ler-te por dentro.
Se te soa bem, podes começar quando quiseres.
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